Dramatizar Pessoa 12ºC/D – 2014-15

Uma conversa entre Pessoa e os seus heterónimos.

Sobre Arminda Gonçalves

Professora de Português da Escola Secundária Augusto Gomes em Matosinhos.
Esta entrada foi publicada em Lt Fernando Pessoa, Z_2014-15Portefólio12ºC/D. ligação permanente.

10 respostas a Dramatizar Pessoa 12ºC/D – 2014-15

  1. Raquel Silva diz:

    Conversa entre Fernando Pessoa e os seus heterónimos

    Álvaro de Campos: O que há em mim é sobretudo cansaço…
    Ricardo Reis: Eu avisei-te, não devias ter exagerado.
    Álvaro de Campos: Não me venhas com essas tretas!!! Chega!
    Ricardo Reis: Mas sabes bem que é verdade. A vida é efémera, não te deves deixar levar por pequenos prazeres. Agora aceita o destino que os deuses te traçaram.
    Alberto Caeiro: Quais deuses? Para quê perder tempo a pensar nos deuses? Para quê pensar sequer? Já há metafísica bastante em não pensar em nada.
    Álvaro de Campos: Calem-se! Já estou farto de vos ouvir aos dois! Quem me dera que fossem todos engolidos por um motor, atropelados por um carro de corrida e que se afogassem em óleo ardente!
    (Entretanto Fernando Pessoa entra deprimido, senta-se e bebe o seu típico copo de absinto.)
    Álvaro de Campos: Que foi agora? Voltou-te a dar a dor de pensar?
    Fernando Pessoa: Dói-me pensar nos momentos que passei com a Ofélia…
    Alberto Caeiro: Pensar só traz problemas, é estar doente dos olhos, basta estares ao pé dela para seres feliz.
    Fernando Pessoa: Quem me dera poder estar à beira dela…
    Alberto Caeiro: Mas estar à beira dela é só estar à beira dela. O que é que te impede?
    Fernando Pessoa: Aqui o engenheiro naval…
    Álvaro de Campos: Mas o que é que eu fiz agora?
    Fernando Pessoa: Por causa das tuas exuberâncias, arruinaste o meu sonho de ter a Ofélia nos meus braços.
    Ricardo Reis: Devias de seguir o meu exemplo com a Lídia, “Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz/ Nem invejas que dão movimento de mais aos olhos”.
    Alberto Caeiro: Deixem-se disso, porque “quem ama nunca sabe o que ama, nem sabe porque ama, nem o que é amar”.
    Álvaro de Campos: Cala-te, campónio!
    Fernando Pessoa: Mas, com ela eu era feliz, feliz como uma criança que brinca inconscientemente…
    Ricardo Reis: Nós temos é de viver em harmonia com a Natureza, aceitando o nosso destino e tentando não sair da ataraxia.
    Álvaro de Campos: Deixem-se dessas lamechices, o importante é “sentir tudo de todas as maneiras”, sentir tudo excessivamente, porque todas as coisas são, em verdade, excessivas.
    Fernando Pessoa: Bem, vou-me embora, quero ver se ainda escrevo uma carta à Ofélia para me desculpar.
    Álvaro de Campos: Todas as cartas de amor são ridículas, “Meu Bébé pequenino”, “Então o meu Bébé fez-me uma careta quando eu passei”, “Muitos beijos e um abraço à roda da cintura do Bébé”.
    Ricardo Reis: Vive simplesmente, deixa a dor para os deuses.
    Alberto Caeiro: Não penses, “pensar incomoda como andar à chuva”.
    Fernando Pessoa: “Ó céu! Ó campo! Ó canção! A ciência/ pesa tanto e a vida é tão breve!”
    Ricardo Reis: De acordo.
    Álvaro de Campos: “Ah, não ser eu toda a gente em toda a parte!”

    Feito por: Joana Mendes, Raquel Silva, Sofia Barroso e Isabel Pinto

  2. (Fernando Pessoa e os seus heterónimos estão à beira do rio ao pôr-do-sol)

    Ricardo Reis: Foi precisamente aqui que me encontrei há uns dias com a Lídia. (desabafa Reis) “Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.”
    Alberto Caeiro: “Pensar é estar doente dos olhos.”
    Pessoa: “Pesa tanto e a vida é tão breve!”
    Ricardo Reis: A vida é tão efémera, temos de aproveitá-la ao máximo mas com moderação, “E sem desassossegos grandes”, como o meu grande amigo Horácio.
    Alberto Caeiro: Por isso é que vim cá ver o pôr-do-sol, aproveitar enquanto não fica de noite, depois não vejo nada!
    Álvaro de Campos: “Mas que importa tudo isto, que importa tudo isto!”
    Ricardo Reis: Realmente que importa tudo isto se estamos todos sujeitos ao Fado? Só os deuses estão acima de nós, e nem assim controlam o destino.
    Alberto Caeiro: Mas que deuses? Eu sou um materialista, só acredito no que vejo!
    Pessoa: Haja Deus ou não, somos servos deles.
    Ricardo Reis: “Não vale a pena fazer um gesto!”
    Alberto Caeiro: Olhem ali os navios! E o seu barulho tremendo.
    Álvaro de Campos: “Que a estas horas estão levantando ferro ou afastando-se das docas, ó ferro, ó aço, ó alumínio, ó chapas de ferro ondulado! Ó cais, ó portos, ó comboios, ó guindastes, ó rebocadores!”
    (Pessoa abana o braço de Álvaro de Campos)
    Pessoa: Lá vêm as crianças todas contentes… Ai, são mesmo inocentes.
    Álvaro de Campos: “Não me peguem no braço! Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho! Já disse que sou sozinho!”
    Pessoa: Tenho tantas saudades de ser assim.
    Ricardo Reis: Tu e a tua dor de pensar…

    Feito por: Ana Cláudia, André Lopes, Catarina Gomes e Francisco Cruz.

  3. Ines Silva diz:

    Álvaro de Campos: Como têm passado,meus amigos?
    Alberto Caeiro: Como a natureza meus caros,tranquila e serena.
    Álvaro de Campos: Lá está ele com os seus girassóis.
    Ricardo Reis: Qual é o problema de viver em harmonia com a natureza?! Já dizia a filosofia estóica de Zenão.
    Fernando Pessoa: Oh Campos, não desprezes as flores. Flores essas quase tão bonitas como a minha Nininha.
    Ricardo Reis:Mas então, Campos, como vai a tua efémera vida ?
    Álvaro de Campos:” Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime! /
    Ser completo como uma maquina! / Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo! / Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto, / Rasgar-me todo, abrir-me completamente , tornar-me passento / A todos os perfumes de óleos e calores e carvões / Desta flora estupenda , negra, artificial e insaciável ! ”
    Alberto Caeiro: Não te exaltes, Campos !
    ( Uma rapariga bonita passa….)
    Alberto Caeiro : Que rapariga tão bela, como uma flor.
    Ricardo Reis : Mas eu não me posso envolver, tenho de manter um estado de ataraxia, sem perturbações.

    Trabalho realizado por: Inês Silva, Gonçalo Brás, Henrique Dantas, Diogo Andrade e Rafael Moura.

  4. Ana Pontes diz:

    Fernando Pessoa: O poeta é um fingidor!
    Alberto Caeiro: Há poetas que são artistas, mas é tão triste não saber florir!
    Ricardo Reis: Colhe as flores mas larga-as!
    Álvaro de Campos: (irritado) Tirem-me daqui a metafísica!
    Alberto Caeiro: Concordo! O essencial é saber ver… Saber ver sem estar a pensar.
    Fernando Pessoa: (confuso) Como é possível saber ver sem estar a pensar quando todos os sentimentos são racionalizados?!
    Ricardo Reis: Só os Deuses sabem, meus amigos…
    Álvaro de Campos: Oh my darling, até o motor do meu carro mais rasca é mais precioso que os teus Deuses.(imita o som de um motor) Rrrrrr!
    Alberto Caeiro: Esses objetos lembram-me a noite, quando não consigo ver a natureza pura.
    Fernando Pessoa: Carros… (pensativo) Ai que saudades…
    Ricardo Reis: (um pouco perdido) Saudade?! A que te referes?
    Álvaro de Campos: Eia! Estás a lembrar-te da tua infância, pá?
    Fernando Pessoa: Como tu me compreendes. Foi a única fase feliz da minha vida.
    Alberto Caeiro: A minha infância foi passada a plantar couves com a minha tia, por isso desde aí que sou feliz com a Natureza.
    Ricardo Reis: Planta rosas!
    Álvaro de Campos: Deixem-se de ser flores, para isso já basto eu.
    Fernando Pessoa: Oh chefe, manda vir o absinto!

    Trabalho realizado por Ana Pontes, Catarina Almeida, Madalena Meca e Susana Pinto.

  5. Tatiana diz:

    Pessoa – Ai! Que dor de pensar (tira um cigarro e acende-o)

    Caeiro – Estás maluco ? Pensar é estar doente dos olhos!

    Campos – Eia, não! O importante é sentir tudo de todas as maneiras.

    Reis – Deixem-se disso, aproveitem o momento que a vida é efémera!

    Pessoa – Falemos de assuntos que nos interessam a todos, amigos! O que iremos fazer acerca do Bernardo ?

    Campos – (abana a cabeça, fazendo um som negativo) por mim, esse não entra cá … Na na na !

    Reis – Campos, tens de ser mais compreensivo e aceitá-lo! Calma! Tranquiliza a tua alma! Ele é igual a nós, que tens a dizer, Caeiro ?

    Caeiro – Decidam o que quiserem, mas se ele falar tão bem como o vento que por mim passa, eu aceito …

    Pessoa – Campos, vá lá , seja coerente e aceite Bernardo no nosso grupo!

    Campos – Oh Oh Oh ! Esse não tem qualidade para cá entrar !

    Caeiro – Eu, como mestre, apelo à permanência do senhor Bernardo e como o nosso Fernando também apoia a decisão, temos um novo elemento no grupo!

    Campos – Brindemos a esta fantástica decisão!

  6. Ana Margarida diz:

    Guião produção de texto de Pessoa

    (Encontravam-se os quatro na praia fluvial do Gerês. Fernando Pessoa está debaixo do guarda-sol sentado numa cadeira com o seu ar clássico. Reis observa a ondulação do rio enquanto que Caeiro tira fotografias à bela paisagem)

    CAEIRO: Ah! que belo dia! O sol brilha e os pássaros cantam… “e o que vejo a cada momento é aquilo que eu nunca antes tinha visto”.

    PESSOA: Muito poético, Caeiro. Outrora! Está-se melhor à sombra. Que me dizes, Reis?

    REIS: Eu cá prefiro observar o rio (aparte) “vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio” (fim do aparte) Ver passar a efémera vida.

    (Campos surge no início da praia correndo euforicamente na direção dos seus amigos)

    CAMPOS: R-r-r-r-r-r-r-r-r-r-reis, Fer-r-r-r-r-r-nando, pastor-r-r-r-r-rzinho!!

    PESSOA: Ai… Campos e a sua euforia. Ouvi-lo falar dói mais que pensar.

    CAEIRO: Não penses! “Há metafísica bastante em não pensar em nada”. Vê como ele está feliz

    REIS: “Não vale a pena fazer um gesto”.

    (Campos mostra a revista que tinha acabado de comprar)

    CAMPOS: Vejam bem estes motores. “Ah poder exprimir-me todo como um motor se exprime! Ser completo como uma máquina!”

    REIS: Campos, não exageres! Tens que te moderar e aproveitar o momento.

    PESSOA: Olha, não viste a Ophélia enquanto vinhas para cá? Acho que ela hoje vinha à praia.

    REIS: Esquece-a! A vida deve ser vivida “sem amores, nem ódio, nem paixões que levantem a voz”.

    CAEIRO: Aprecia a natureza enquanto é dia, pois a noite chega e já não consegues ver.

    PESSOA: Eu tento mas “o poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”.

    CAMPOS: Fernando António Pessoa, estou cansado de te ouvir falar nessa mulher, ela não me aceita!
    PESSOA: Eu sei, Campos, desculpa. É por isso mesmo que não existe nada entre nós, ela tem de aceitar os meus amigos!

    REIS: Ai, Lídia…(suspiro)

    CAEIRO: Lídia? A tua musa inspiradora? Quando é que lhe vais pedir o número?

    REIS: Não posso ceder a estas paixões…temos de desenlaçar as mãos e seguir com o nosso destino.

    (Campos interrompe a conversa dos dois)

    CAMPOS: Meninos, já se está a fazer tarde (olhando para o relógio através do seu monóculo)

    CAEIRO: Tens razão… Quando a noite vem, eu não vejo… e com não vejo já não consigo ser feliz…

    PESSOA: Bem, vamos dar o dia por terminado que aqui o nosso mestre está a ficar melancólico!

    REIS: Vamos, que assim os Deuses o desejam.

    (Os quatro dirigem-se para o carro de Campos que, euforicamente, lhes explicava o funcionamento dos motores)

    CAMPOS: “São como a natureza tropical… grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força”.

    PESSOA: Desculpa lá a interrupção, mas acho que já chega de motores por hoje. Que me dizem,amanhã, à mesma hora, encontrámo-nos para um copo de absinto?

    (Após concordarem com a proposta de Pessoa, entram no carro)

    CAEIRO: Cuidado com a curva! Ainda tenho muito para ver!

    PESSOA: Se batermos, ao menos temos um médico no carro.

    REIS: Se morrermos, é o nosso destino. . .

    CAMPOS: AGARREM-SE!!

    TODOS: AHHHHHHHHHHHHHH!

    (O carro cai de uma ribanceira e embate mortalmente no fundo. Só Pessoa sobrevive.)

    PESSOA: Meus amigos …. (chora) Não se preocupem. Irei fazer com que todos se lembrem de vocês!

    FIM

    ESCRITO POR: Ana Margarida; Maria Elvira; Mariana Justo; Patrícia Botelho

  7. Inês Ferreira diz:

    “Dramatizar Pessoa”

    (Numa tarde chuvosa, Fernando Pessoa e os seus heterónimos (Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis) decidiram ir assistir a um filme mudo ao cinema. Durante o intervalo do respectivo filme , inicia-se um diálogo entre Fernando Pessoa e Alberto Caeiro, enquanto os outros tinham saído da sala de cinema.)

    CAEIRO- Ah, como a nossa visão é algo tão precioso! Cegos nunca iríamos perceber este filme. O que estás a achar do filme?
    PESSOA- Estou a gostar, mas ver aquela criança a brincar…” Ah, poder ser tu, sendo eu! Ter a tua alegre inconsciência e a consciência disso”.
    CAEIRO- Deixa-te desses pensamentos melancólicos e usufrui da tranquilidade que a natureza nos oferece. Chega de pensar! “Pensar é estar doente dos olhos”.

    (Entretanto, chegam o Ricardo Reis e o Álvaro de Campos.)

    CAMPOS (gritando para todos)- Eia! Eia! Digam lá se a melhor coisa do filme não foi o ranger da máquina projectora! R-r-r-r-r-r-r-r-r… ”Ah, poder exprimir-me todo como o motor se exprime”.
    PESSOA- Como esse barulho me lembra o forno da casa da minha falecida tia…
    CAEIRO (em tom de gozo) – Sempre a pensar, Nandinho…” Acho tão natural que não se pense que me ponho a rir às vezes sozinho”.
    REIS- Ou demasiado exaltado ou demasiado nostálgico… Arranjem um meio termo!! A “aurea mediocritas” é uma coisa que não vos assiste? Isso faz-vos mal à alma. Têm de…

    (Ofélia surgiu de repente na sala de cinema.)

    PESSOA (interrompendo o Reis)- Ofélia, minha querida Ofélia, vieste!
    OFÉLIA- Bem… Cheguei e pelos vistos já me vou pôr a andar! Estão aqui certas pessoas… (olhando de lado para Campos) Bem… Tu entendes-me. Mas, já que aqui estou deixo-te esta carta.
    (Ofélia entrega com delicadeza a carta.)
    CAMPOS (gozando)- Oh, cartas..cartas de amor…”Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas.”
    REIS- A tua relação com a Ofélia não é a mais correcta na minha opinião.
    PESSOA: Opinião que não te pedi!
    REIS- Mas que eu quero dar. Uma relação ideal é a minha com a Lídia. “ Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio. Mais vale saber passar silenciosamente e sem desassossegos”.
    PESSOA- Esse esconder de sentimentos, esse fingimento… Fingir não amar a Lídia? Para quê mesmo?
    CAEIRO- A sinceridade é algo de muito precioso nas relações.
    REIS- O destino está traçado pelos Deuses. Não o podemos alterar.
    CAMPOS- Eia pá, calem-se lá que o rugir da máquina está a começar!! “Arde-me a cabeça” e estou a ficar cansado, deveras cansado…

    (O intervalo termina. Fernando Pessoa e os seus amigos retomam a visualização do filme).

    Realizado por :
    Ana Rita
    Inês Ferreira
    Joana Craveiro
    Tânia Filipa

  8. João Nóvoa diz:

    DRAMATIZAR PESSOA

    (Pessoa encontra-se a escrever três cartas na sua cómoda… Mal acaba, ao mesmo tempo que fala o nome de cada heterónimo, vai escrevendo o destinatário de cada carta)
    Pessoa: Há quanto tempo que já não falo com eles… Como é que será que eles estão? Espero que estejam todos vivos e que não tenham ocorrido muitas mudanças nas suas vidas. A cada dia que passa “Torno-me eles e não eu.”. Espero que isto valha a pena.

    (Passado um mês, na Aldeia de Caeiro)
    Alberto Caeiro: Estou aqui na minha aldeia sossegado a escrever os meus poemas quando recebo esta carta que não deixa “o meu olhar nítido como um girassol” brincar com a natureza. Já não nos vemos nem falamos desde aquele dia…

    (No Brasil)
    Ricardo Reis: Tudo o que fiz até agora foi enviar-lhe as minhas obras, tudo feito com o auxílio dos deuses e com um moderado distanciamento dele e da vida… Apesar de tudo tenho saudades de todos, mas uma saudade tranquila e moderada, pois “mais vale saber passar silenciosamente e sem desassossegos grandes”. Sempre soube que o destino um dia nos iria juntar novamente mas, como sempre, está a acontecer de uma maneira diferente da qual desejei.

    (Furiosamente, Campos, na sua fábrica, responde-lhe)
    Álvaro de Campos: Esta besta a quem a sorte saiu e que aceitou ser o motor desta máquina que eu criei. Egoísta! Vou! Tenho que responder “eu sou um técnico” mas “fora disso sou doido” mas tenho “todo o direito a sê-lo”, ouviste? Tens tudo e eu não tenho nada. (pega numa folha de papel e escreve) “Tenho febre e escrevo, escrevo rangendo os dentes”.

    (Dia 8 de março de 1915, no Café O Martinho da Arcada, conforme combinado nas cartas de Pessoa… Pessoa na sua mesa, tomando o mesmo do costume.)
    Pessoa: O único que respondeu foi Campos, dando a certeza que vinha, embora de uma maneira rude, fria e inquieta. Caeiro nada disse, mas tenho a certeza que vem – a minha aspirina nunca me faltaria! Já Reis, como não me respondeu, faz-me duvidar da sua presença neste importante encontro… Sempre com a mania que nada pode contra o destino! Mas nunca se sabe… Esperemos então! Está combinado para as quatro da tarde por isso ainda têm tempo.

    (Às quatro horas em ponto, à entrada do café, vê-se Reis, e do lado direito, no fim da rua ouvem-se gritos)
    Caeiro: Ó Reis! Pera aí! Não entres sem mim, espera, seu cabrito!
    Reis: Quem ousa tentar alterar o meu destino, o meu caminho!
    Caeiro: Sou eu, o teu amigo Caeiro, ora essa! Vi-te, mal tive oportunidade… Mas sinceramente, parecias-me melhor ao longe… O que te aconteceu? Dizem que foste para o Brasil, e agora confirmo isso, estás feio que nem uma flor queimada!
    Reis: Então é isso que te fazem dizer os deuses? Vá, não te entusiasmes muito que isso não está correto, “Não consentem os deuses mais que a vida”
    Caeiro: Oh, era o que mais faltava! Deixa-me excitar e ficar excitado com o meu olhar!
    Reis: Depois vais-te arrepender, no futuro! O fado não fecha os olhos…
    Caeiro: Entra lá e deixa-te de palavras caras, de deuses e destinos e admira a Natureza… Bem! Aqui nem vejo muito daquilo em que acredito… É tudo tão anti Natureza!

    (Entram no café e sentam-se na mesma mesa da última vez, nos mesmos lugares e faz-se um silêncio… Sem um único cumprimento, Pessoa intervém)
    Pessoa: As pessoas chamam-me de louco…
    Caeiro: E não é o que tu és? Aliás! É o que todos nós somos…
    Reis: Fala por ti! Eu sempre me considerei anormal, mas por excesso de sabedoria… Se vocês seguissem as minhas crenças, iam ter uma vida serena, sem problemas, onde podemos ser reis de nós próprios …
    Caeiro: Ó Reis tá mas é caladinho com as tuas teorias, vá! Participar nesta loucura é como cheirar um presente de uma das minhas vacas – uma bosta! Mas é certo que tenho estado na minha aldeia a ver e rever tudo, sempre a encontrar algo novo e sempre a surpreender-me… Provavelmente fui o que mais ganhou com isto tudo…
    Reis: Ganhaste, e ganhaste! Só que foi uma quantidade de problemas no futuro…
    Caeiro: Ahahahaha
    Reis: Ri-te, ri-te! Mas vais ser o que mais vai sofrer no fim, estou a avisar-te, eles não descansam!
    Pessoa: Mas onde estará o Campos? Provavelmente não vem, depois da carta dele não me admirava nada! Bem, se leram o que vos mandei sabem porque quis que nos encontrássemos!

    (Entretanto entra Campos todo molhado e apressado)
    Campos: Mas que nojo de maquinaria, mas que tosta queimada cheia de manteiga que sabe mal, mas que… R-r-r-r-raios! Desculpem o atraso, mas estes automóveis não prestam! Motores falsificados, engrenagens desdentadas, rodas ultrapassadas! “Ó rodas, ó engrenagens, ó r-r-r-r enterno” salvem-me por favor… O carro deixou de trabalhar a meio do caminho, vim o resto a pé, começou a chover e…
    Reis: Já chegaste, isso é o que interessa, apesar de o teres feito de maneira diferente da que estavas à espera… mas é sempre assim não te preocupes!
    Pessoa: Já repararam… desde que chegaram, só discutiram. Combinei este encontro, não só para vos dar novidades, como disse na carta, mas sim para ver como ia correr este reencontro! E isto faz-me pensar, pensar muito, pensar tanto que até queima… Faz-me pensar se isto tudo foi de facto boa ideia? Já não nos conhecemos, cada um defende-se a si próprio com as suas teorias e crenças não estando dispostos a ouvir opiniões diferentes… Calma, o poeta é um fingidor, mas é quando escreve, não na vida real! E os poemas? Ah, esses só irão ter sucesso depois de estarmos todos a uns bons metros de profundidade… Será que valeu a pena?
    Campos: Pois isso dizes tu! Falas de barriga cheia! Foste tu quem lucrou com a minha ideia com o meu cérebro… Um plano genial que resultaria na perfeição se eu fosse o escolhido para o papel principal!
    Reis: Valeu a pena, claro! Fernando, repara bem, é bom que o sucesso do nosso trabalho seja moderado… Porque quanto mais sucesso tivermos, mais sofreremos futuramente por isso, valeu a pena… Não penses em grande! Está tudo ótimo e eu estou medianamente feliz!
    Caeiro: Eu também acho que valeu a pena, e se não valeu, paciência, o que me interessa são os meus rebanhos e aquilo que observo, portanto esqueçam lá isso e sejam o que vêem, sejam felizes com o pasmo essencial que têm ao descobrir algo novo a cada momento em tudo o que a Natureza nos oferece…
    Reis: Nada de sensações, menino! Eu sou eu próprio e mais nada!
    Campos: Sabem que mais… Estou farto e cansado disto tudo, acho melhor deixar tudo como está… Afinal já começamos, por isso agora há que andar para a frente com isto… Já vi que continuam todos elegantes e para mim chega, vou-me embora!

    (Campos levanta-se e ao ir embora…)
    Pessoa: Espera, antes de te ires embora quero dividir o que recebi até agora com o nosso trabalho por todos nós… (faz as divisões) Se te quiseres ir embora, vai, mas eu preferia…
    Campos: Vou embora, porque já não aguento mais, gastei todas as minhas forças com a minha fábrica com as minhas máquinas e os seus motores nos últimos tempos… Não tenho tempo nem energia para mais nada. Adeus! (Sai do café)

    Reis: E pronto, o Destino encarregar-se-á dele, deixem-no ir…
    Caeiro: Tenho saudades da minha aldeia e do “rio que corre pela minha aldeia”
    Pessoa: Não tenho mais nada a dizer… Estou cansado de pensar nisto…
    Reis: Então vamos, que eu daqui até ao Brasil ainda demoro…
    Caeiro: Adeus amigos!
    (Saem os três)

    TRABALHO REALIZADO POR: João Nóvoa, Catarina Pinto, Maria Silva, Bárbara Machado

  9. Nuna Barbosa diz:

    Todos juntos na margem do Rio Tejo.
    Reis: Como os anos passam, ainda há pouco crianças e agora aqui ouvindo correr o rio e vendo-o…
    Campos: Ai o Tejo é tão lindo!
    Caeiro: Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia.
    Pessoa: Que saudades que tenho das badaladas do sino da minha aldeia que marcavam os meus passos…
    Campos: Que saudades daqueles escoceses, e que vontade de voltar a ser criança.
    Pessoa: A criança que fui chora na estrada, quando ouve o vento.
    Caeiro; Mas o vento não diz nada.
    Reis: Ele nada pode dizer-te , a resposta está além dos Deuses. Deixem o rio correr
    Campos: Ai o rio, recorda – me noites loucas a ouvir o ronronar do motor , rrrrrrrrrrr, cheio de exaltação e energia.
    Pessoa: Deixa-te de mariquices e vem-me coçar o bigode, ou pelo menos finge que és macho.
    Caeiro: Boiolas como tu guardo eu no meu rebanho…
    Campos: Se me quiseres amarrar e levar para o teu rebanho eu não me importo, eu quero é sentir tudo e de todas as maneiras!!
    Pessoa: Leve , breve e suave …
    Reis : Mas acima de tudo, aproveitem o momento, porque a vida sim , essa é breve.
    Caeiro : É , é, e agora tenho que abandonar que tenho uma consulta às cinco.
    Pessoa: Por causa da hepatite ?
    Campos : Não, aposto que é a tuberculose…

  10. Susana Rodrigues diz:

    Dramatizar Pessoa

    Estava Fernando Pessoa e Ricardo Reis na praia a repousar e a embarcar embocar absinto quando:
    Reis: Inadmissível! Sempre a mesma situação! Deixo os meus afazeres no hospital para vir aqui esperar por aqueles dois cavalheiros que nunca mais chegam. Não concordas, Fernando?
    Fernando: “E toda aquela infância que não tive me vem numa onda de alegria que não foi de ninguém” (suspirando) Ah… Que nostalgia…
    Neste mesmo instante, passa Lídia, a famosa nadadora salvadora da Praia Grande
    Reis: “Vem sentar-te comigo Lídia, à beira mar…”
    Chega Álvaro de Campos no seu carro de corrida e tenta desculpar-se do seu atraso:
    Campos: Perdi a noção do tempo enquanto arranjava as engrenagens, rodas dentadas, vidros, parafusos e correntes do meu pequeno relógio de bolso… TIC-TAC-TIC-TAC
    Fernando: Já estamos três. E o Caeiro?
    Caeiro: Olá meus velhos amigos, não se preocupem, o mestre chegou!
    Reis: Tarde, mas chegou! Vamos dar início ao que nos trouxe cá.
    Fernando: Sim, convoquei-vos aqui porque preciso da ajuda de todos para conquistar Ofélia de Queiroz, visto que ela está chateada comigo por causa desse engenheiro aí…
    Campos: Eia! Eia! Eia! Alto e pára o barco! Com Ofélia não tenho eu nada a ver! Eu posso gostar de aparelhos de rodas, ferreos, brutos, mínimos, máximos… Mas de mulheres? Ho! Eu não gosto! Já das máquinas? “Amo-vos a todas, a tudo, como uma fera. Amo-vos carnivoramente, pervertidamente e enroscando a minha vista. Em vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis, ó coisas todas modernas…”
    Reis: Alto! Tenham calma, nada de desassossegos grandes. Um atarax já ia… E tu, mestre? Não dizes nada?
    Caeiro: Oh, eu não… Pensar é morrer! E Campos, estás a precisar de uns dias de férias, a maquinaria está a fazer-te mal! Precisas de um tempo a “ouver” o campo sabes…
    Campos: De “ouver o campo”? (Ri-se) Se tivesses estudado, assim como eu, não dizias essas coisas. Tirar férias das máquinas? Não… Mas viajar com os meus três velhos amigos.. porque não?
    Pessoa: Então está decidido, vamos rumo à Índia, visitar Ofélia!
    Reis: E tu a dar-lhe com a Ofélia, já te disse para não perturbares o rio… Tudo passa, dá tempo ao tempo.
    Caeiro: Vamos mas é visitar o campo e o Alentejo e vilas pequenas, cheias de animais! Se é para viajar que seja para o meio rural!
    Entretanto Alberto Caeiro e Álvaro de Campos começam a sentir-se mal depois de beber o seu absinto e acabam por falecer. Fernando Pessoa retira a sua arma do bolso e dá um tiro a Ricardo Reis visto que este não bebe álcool.
    Fernando Pessoa apodera-se dos seus heterónimos após os ter assassinado, aproveitando-se dos seus poemas.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s